sexta-feira, 14 de setembro de 2012

O Cemitério de Praga - Umberto Eco

Esta é a quarta obra que leio de Eco e, ao lê-la, a principal questão que me vinha à ideia era: mas será que este homem não consegue escrever uma história que não meta a religião ao barulho? O primeiro livro, O Nome da Rosa, é provavelmente a obra em que a relação com a religião é menos relevante para a história. Mas em todos os outros a religião (seja ela a católica ou outra qualquer) é parte importante no decorrer da narrativa. Se por alguma razão milagrosa este texto chegar aos olhos do Eco, desafio-o a escrever uma obra sem a mínima referência a uma religião. Sempre quero ver se é capaz...

Mas voltando ao livro, e à sua história: o livro é-nos apresentado de uma forma invulgar. Funciona quase como um diário em que o narrador nos conta as suas aventuras. Interessante também é o facto deste diário, pessoal, ser escrito por duas pessoas com formas de pensar e agir diferentes, mas em que as respectivas vidas se cruzam de uma forma bastante peculiar. E na arte de contar histórias de forma pouco convencional, Eco é exímio - o seu livro mais vulgar talvez seja, mais uma vez, O Nome da Rosa, pelo seu paralelismo com um Sherlock Holmes e Watson. Mas mesmo assim, a sua narrativa é inconfundível.

Também em relação ao conteúdo do livro, começo a perguntar-me se os livros não deveriam sair com uma classificação etária, como acontece com os filmes ou jogos de computador. Eu não sou purista, e acredito que um leitor sem idade suficiente para digerir algumas das cenas deste livro, não teria o ânimo, compreensão, interesse, ou força de vontade para ler todo o livro e chegar à parte menos inocente, que aparece bem para o fim. Não quero dar detalhes, mas devo dizer que a cena a que me refiro não é típica, e mistura dois assuntos que habitualmente dão faísca: religião e sexo, que levam a uma cena herética. Mas mais não digo.

Finalmente, é meu apanágio referir-me à qualidade de escrita e tradução. A esse respeito, os parabéns à Gradiva por manter informação sobre o tradutor bem clara no sua edição. Em relação à tradução, sei que Eco não é simples de traduzir, mas mesmo assim o livro está bem traduzido na generalidade, apenas com alguns erros ortográficos e erros de edição, em que se nota que o tradutor preparava determinada tradução, mas desistiu e decidiu enveredar por outra construção sintáctica.

3 comentários:

Anónimo disse...

Gostaria que os comentários fossem centralizados no livro em si(enredo,qualidade da trama etc..)

Anónimo disse...

Mais comentários sobre o livro seriam interessantes, como comentado, mas considero fundamental a avaliação da tradução, que raramente é mencionada, fundamental para a minha decisão sobre ler, ou não, o livro. Nesse aspecto, gostei do texto.

Kleiton Gonçalves disse...

Como praticamente toda a curta ficção de Eco é histórica, fica difícil retirar a presença das religiões de seu contexto.

Mas em "A Ilha do Dia Anterior" sua presença é quase inexistente, assim como em "A Misteriosa Chama da Rainha Loana", mais dedicado a aspectos de comunicação de massa, como livros populares, gibis, programas de rádio e cinema.

Em O Pêndulo de Foucault, igualmente, as religiões são apenas indicadas para fundamento das teorias mirabolantes criadas pelo editores-protagonistas.

Bom blog. Abraços,

Kleiton
kleitongoncalves.blogspot.com.br