No post anterior sobre a iniciativa Volta, levantei várias questões sobre a sua implementação. Alguns leitores poderão ter ficado com a ideia de que sou contra a reciclagem, ou contra a iniciativa em si. Não sou. É importante responsabilizar o consumidor pela reciclagem, e em vários países europeus funciona bem. O problema não é o conceito, mas a execução e a falta de transparência sobre como tudo isto (não) vai funcionar na prática.
Já nem vou entrar pela discussão que tem vindo a público sobre as instituições privadas que estão por trás da iniciativa, e das dúvidas sobre a honestidade e transparência empresarial.
Mas chamar à atenção sobre outro ponto de vista: há uma ilusão recorrente na política pública portuguesa: basta olhar para o que funciona noutro país e copiar.
Esta ilusão é recorrente. Na educação superior, a aprendizagem baseada em projetos tem resultados sólidos nos países escandinavos. Em Portugal, rapidamente se transformou num exercício de minimalismo: faz-se o suficiente para ter nota. E digo com conhecimento de causa, que fui docente universitário durante muitos anos.
Mas então, se na Alemanha o Pfand funciona admiravelmente bem há décadas, o que difere da sua implementação em Portugal? Para além de a Alemanha ter décadas de cultura de reciclagem e uma infraestrutura consolidada, tem uma diferença muito mais gritante: tem alemães!
Portugal tem outras características, e uma delas é aquilo a que carinhosamente chamamos de chico-espertismo.
Não demorou muito a aparecer.
A Volta está, pelo menos nesta fase de implementação, limitada a embalagens até 3 litros, e algumas marcas já começaram a lançar garrafas de 3,1 litros. A letra da lei foi cumprida. Isto não é uma surpresa para quem conhece o mercado português.
Mais grave será outra situação, que vi reportada no Facebook. É o caso dos restaurantes que cobram os dez cêntimos em garrafas que não têm o símbolo Volta — ou seja, garrafas que o cliente nunca podeá devolver. O desconto só aparece se o cliente reparar e reclamar.
Chico-espertismo!
É exatamente por isto que a transparência importa. Não basta lançar uma iniciativa com boas intenções. É preciso antecipar como ela vai ser contornada, e criar mecanismos para evitar os abusos mais óbvios. O limite dos 3 litros precisava de ser acompanhado de uma regra clara sobre embalagens de tamanho limítrofe. Os restaurantes precisavam de fiscalização.

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