Ontem o INE confirmou aquilo que todos já suspeitávamos: em 2027, a idade da reforma sobe, agora para os 66 anos e 11 meses. Tudo isto é caricato, e começa logo com este facto. Quem decide a idade da reforma não é a segurança-social, não é o Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, mas é um instituto de Estatística. Podemos quase dizer que estamos já a ser controlados pela Inteligência Artificial, já que esta não passa de um modelo estatístico complicado.
A fórmula é simples, fria, e matematicamente implacável: quanto mais tempo vivemos, mais tempo temos de trabalhar. Vivemos mais, logo trabalhamos mais, logo descansamos... praticamente o mesmo. A Segurança Social agradece a nossa resiliência.
À esquerda, há quem ache que a solução é baixar a idade da reforma. À direita, há quem jure que isso faz a Segurança Social implodir. Ambos têm razão, mas nenhum tem uma proposta razoável. É o debate favorito do país: toda a gente fala, mas ninguém pergunta ao enfermeiro de 67 anos que ainda faz noites, ao professor que ainda corrige testes com os mesmos óculos do século passado, ao varredor de rua que já não se aguenta dos joelhos, e ao jardineiro que mal consegue aguentar-se sobre a coluna...
A questão não é sobre quanto tempo vivemos, é o que conseguimos fazer com esse tempo. A esperança média de vida subiu — ótimo. Mas a esperança de vida com saúde e capacidade produtiva é outra conversa. Uma conversa que, estranhamente, ninguém quer ter.
Em vez disso, o debate resume-se a uma equação simples: as contribuições sobem ou idade da reforma sobe. Onde está a criatividade? Para isso, um programa informático consegue governar.
Será que não há mais nada? Reformas antecipadas concedidas sem critério, subsídios atribuídos sem revisão, obras milionárias desnecessárias, desperdício crónico no sistema, e os bolsos dos mesmos sempre pelas costuras. É mais fácil dizer ao cidadão "trabalha mais um pouco..." do que olhar para dentro.
A Segurança Social é um contrato entre gerações. Os cidadãos activos de hoje pagam aos reformados de hoje, confiando que os activos de amanhã farão o mesmo por eles. É um acto de fé colectivo. E como toda a fé, começa a vacilar quando percebemos que as regras mudam sempre — e sempre no mesmo sentido.
Pergunto-me como se pretende aumentar a produtividade com pessoas de 60 anos a trabalhar. Ah, já sei, despedem-se! E vão para o fundo de desemprego. E não arranjam emprego... e ficam hipotecados, até chegar a maldita idade.
Quanto a mim, vou continuar no meu trabalho, por mais uns anos....

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