sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O Hipnotista - Lars Kepler

Durante as minhas férias decidi arranjar um livro grosso e, esperançosamente, interessante para ler. A escolha recaiu no "O Hipnotista", depois de ter assistido à sua publicidade na televisão. Suspeito que terá sido um dos poucos spots publicitários que alguma vez me influenciaram na compra de algum produto.

Em relação ao livro, há algo que logo me chamou a atenção: a forma de escrita. Devido à minha completa ignorância sobre a língua Sueca, não seria nunca capaz de analizar até que ponto a forma de escrita da versão portuguesa foi herdada da versão original, ou se foi herdada de uma qualquer tradução intermédia que possa ter existido (quem sabe se a tradução para a língua portuguesa foi feita com base no manuscrito na língua original ou, por exemplo, numa tradução existente em inglês), ou ainda se é obra do processo de tradução (ou seja, dos tradutores). Mas, que tem a forma ou estilo de escrita assim especial que me faça escrever tamanho parágrafo? Basicamente, quase todo o livro está escrito no presente do indicativo, descrevendo a acação que decorre nesse preciso momento, ao contrário da forma mais habitual, que será usar o passado, contando algo que se já passou.

Passando à frente a questão estilística, há outro pormenor que me chamou cativou: embora o autor seja denominado Lars Kepler, a verdade é que não se trata de um homem, nem de uma mulher, mas de um casal que escreve em conjunto. Só me lembro de um outro caso semelhante: os livros Uma Aventura, escritos pela actual ministra da educação, Isabel Alçada, e Ana Maria Magalhães. Mas estas, pelo menos, não usam um pseudónimo, e a autoria conjunta é clara. Mas, algo que gostava de compreender, é como estes autores bicéfalos são capazes de produzir cooperativamente. Enquanto que num livro técnico-científico se pode dividir a tarefa dos autores de acordo com as suas áreas de especialização, num romance essa divisão não me parece possível, já que o livro deverá seguir um fio condutor, e não poderão ser esquecidos detalhes previamente descritos, ainda para mais num policial. Pergunto-me se começarão por um índice ou guião com a história base, que possam ir enriquecendo em paralelo, ou se vão, mesmo, escrevendo em sintonia, os dois autores a escrever num mesmo computador ou máquina de escrever. Outra curiosidade seria saber até que ponto uma ferramenta como um wiki poderia facilitar a tarefa de produção cooperativa de um romance.

Voltando ao conteúdo do livro, e nomeadamente à história que é contada, e sem introduzir informação que possa reduzir o interesse de leitura (os célebres spoilers). A história está bem planeada e engendrada. Sendo um policial ou, se preferirem, um thriller, tem a cada momento um conjunto pequeno de possíveis caminhos ou soluções para o caso a ser narrado, soluções essas que se vão, uma após outra, desmoronando, e dando azo a que se descubram novas pistas e novas possíveis soluções. Toda esta história decorre sem momentos mortos. É certo que os autores vão introduzindo breves descrições dos intervenientes ou das cenas em que a acção decorre. No entanto, estas descrições são curtas e aparecem misturadas ou embrenhadas na acção, fazendo com que o interesse e motivação se mantenha ao longo da leitura de todo o livro.

Existe uma grande quantidade de referências a objectos do quotidiano, reais e actuais: desde a referência a sistemas operativos de um computador, ao Harry Potter, aos Pokemon, à Coca-Cola ou ao McDonalds. Também abundante é a referência a nomes de ruas e lugares concretos de Estocolmo e das vizinhancas. Confesso que não tive paciência (dito de outra forma, tive preguiça) para averiguar até que ponto, pelo menos algumas destas referências, são reais. No entanto, a profusão de nomes de ruas e lugares dá realidade à história em causa.

Embora os revisores da Porto Editora tenham deixado escapar alguns erros, maioritariamente tipográficos, o livro tem muito boa qualidade gráfica e de escrita. Talvez o facto que mais me aborreceu tenha sido o uso de "realizar o doutorado em Economia" em vez do "realizar um doutoramento em Economia". Este foi o único momento em que me perguntei se o livro teria sido traduzido de uma versão brasileira.

Concluindo, a minha opinião é de que estamos diante de um bom livro para todos os apreciadores de thrillers e policiais com muito sangue e mortes à mistura. Sugiro que o leiam antes que surja a já planeada versão cinematográfica.

4 comentários:

Patrícia França disse...

Gostei da crítica. Dá vontade de ir a correr comprar.
também gostei da ideia de escrita literária cooperativa.
=)

Patrícia França disse...

Gostei da crítica. Dá vontade de ir a correr comprar.
também gostei da ideia de escrita literária cooperativa.
=)

Anónimo disse...

creio que poderá obter respostas a como se escreve a dois em http://www.ciberescritas.com/2010/06/14/o-segredo-por-tras-de-lars-kepler/

Anónimo disse...

Já li o livro . Excelente.