Avançar para o conteúdo principal

O Livro de Reclamações Online: reclamar para quê?

 


 

(Este post é uma continuação de Andante: zonas e zoninhas)

Depois do episódio com a Andante, e para não continuar na discussão com a funcionária por e-mail, fiz o que qualquer consumidor devia fazer: escrevi no Livro de Reclamações Online. Descrevi o problema, a informação errada dada pelo apoio ao cliente, e a tentativa de encobrir essa informação com uma nova versão igualmente errada. Referi também a ausência de informação clara no site.

Telefonaram-me. A senhora foi simpática, reconheceu que a zona certa era Z6, e confirmou que não existe qualquer ligação direta entre Lousado e o Aeroporto sem transbordo em Campanhã. Ou seja, o apoio ao cliente mentiu-me duas vezes: primeiro ao dizer que Z4 estava correto; depois ao inventar uma ligação direta que não existe, para justificar a resposta errada. Agradeceu a reclamação, indicando que só assim podem melhorar.

Poucos minutos depois de desligar o telefone, chegou a resposta oficial: um pedido de desculpas frouxo, reconhecendo que seria Z6. Sem qualquer menção à segunda mentira, que usaram para limpar o pó do capote. Sem nenhuma referência à funcionária ou algum compromisso de melhorar o site.

O que mudou? Nada. Para o Andante, esta reclamação está marcada como resolvida.

O Livro de Reclamações e a ilusão de resolução

O sistema funciona assim: fazemos a reclamação, a entidade responde, e a reclamação fecha. Não importa o que escreveu, já que não há possibilidade de contestar a resposta. Podemos, sim, atribuir estrelas, como se estivesse a classificar um hotel. Não há mecanismo para dizer "esta resposta não resolve nada".

A alternativa teórica é contactar diretamente a entidade reguladora da área. Faz sentido quando está em causa um reembolso não pago, ou uma situação concreta e mensurável. Mas quando a reclamação é sobre qualidade de informação, comportamento do apoio ao cliente, ou falta de transparência no site — o que é que a entidade reguladora vai fazer, exatamente?

O Livro de Reclamações Online funciona, na prática, como um sistema de alívio de tensão. Dá ao consumidor a sensação de ter feito algo. À empresa, garante que "respondeu", e por isso, o assunto sanado. Mas tudo fica igual.

Para que serve, afinal?

Há uma pergunta que fica sem resposta clara: o Livro de Reclamações existe para proteger quem? Na minha experiência com o Andante, a reclamação serviu para eu desopilar o fígado numa conversa telefónica com uma senhora que concordou com tudo. Já a empresa registou mais um caso resolvido com sucesso.

Tudo está igual. A funcionária que me deu a informação errada nem deve saber da reclamação. Continua no seu lugar, a prestar a informação que bem lhe apetece. O site, continua com um sistema que não funciona. A empresa também não foi multada. Pelo menos, dão emprego a alguém para atender as reclamações. 

Se irei usar o livro de reclamações novamente? É pouco provável! 

Comentários

Mensagens populares deste blogue

Incoerências ou falta de conhecimentos lógicos

Infelizmente estou a ler o livro " Desenvolvimento de Sistemas de Informação ", de Filomena Lopes , Maria Morais e Armando Carvalho , da FCA, Editora de Informática. O "Infelizmente" porque a minha opinião até ao momento é de que o conceito de DSI é mais treta do que quaquer outra coisa relevante. Mas não é isso que quero discutir, porque os meus conhecimentos de causa ainda são poucos. O que quero aqui referir é a falta de análise lógica dos autores. Algures na discussão de informação, organização e sistema de informação, afirmam: Poder-se-á dizer que não há organização sem informação, nem sistema de informação sem informação e, consequentemente, não há organização sem sistema de informação. Ora, transformemos esta afirmação em lógica de primeira ordem: (~ informação => ~ organização) e (~ informação => ~ sistema informação) então (~ sistema informação => ~organização) Simplificando, P = ((~A => ~B) /\ (~A => ~C)) => (~C => ~B). Construamos a ...

Vila Nova de Famalicão sem Cinema

Vila Nova de Famalicão nasceu numa encruzilhada, entre Braga, Porto, Barcelos, Guimarães, todas cidades seculares. Nesta encruzilhada foi surgindo a necessidade de pernoitar, surgiram os caminhos de ferro, a indústria dos relógios, na já falecida "A Boa Reguladora", e, pouco a pouco, a cidade surgiu. Originalmente tínhamos um teatro, o Cine-Teatro Augusto Correia. Pelo nome já depreendem que tinha uma sala polivalente, que permitia assistir a cinema ou a teatro. Com o tempo surgiu a mania dos Shoppings , e o Shopping Town , único da cidade que merece tal nome, abriu, incluindo um cinema. O Cine-Teatro Augusto Correia foi ficando velho e mais tarde fechou (entretanto demolido, e já oupado por novo prédio habitacional). Este cinema, no Shopping Town foi-se aguentando. É verdade que um cinema numa cidade pequena não pode ter grande variedade de filmes (fica demasiado caro). Mas os filmes mais falados acabavam por passar em Famalicão. Entretanto, eis que surgem os hipermercados,...

Verdade ou Mentira

Fizeram-me um desafio que não lembra nem ao Diabo . Fazer uma lista de nove caracteristicas minhas, das quais três sejam mentira. Agora preciso é de imaginação, para que não descubram facilmente as erradas... sou responsável por um coro paroquial (em que sou o mais novo); durante o curso fiz uma única melhoria de nota, que de 10 passou a 2! (Yay!) mas por outro lado, também tive um 20 numa disciplina (Hurray!) detesto comer couves de bruxelas (coisas verdes.. yuck); adoro miúdas pequenas (relativamente à minha altura, claro); adoro fado (e viva a nossa cultura); prefiro salgados a doces (o doce enjoa...); sou fã do Leixões (desde pequenino!); adoro cozinhar (mas não me obriguem a fazê-lo...); E pronto. Três destas afirmações são erradas. Seis estão correctas. Para que este post não perca interesse ao longo do tempo não me pronuncio sobre as vossas respostas nos comentários. Falem pessoalmente para descobrirem :P Como acho que não conheço nove pessoas com blogue e com paciência para ...