Já por aqui escrevi muitas críticas a vários autores, tradutores, repórteres e outros, que cismam em utilizar a forma
Eu sou um dos que não sabe... em vez da forma mais correcta,
Eu sou um dos que não sabem..., já que, a meu ver, o verbo deve estar de acordo com o sujeito, e neste exemplo, são vários os que não sabem (embora exista um especial, que é o próprio orador).
Ora, um amigo da área das letras, fez-me chegar às mãos umas páginas de um documento, uma gramática (Cunha e Sintra, 1986) que transcrevo:
Quando o relativo que vem antecedido das expressões um dos, uma das (+ substantivo), o verbo de que ele é sujeito vai para a terceira pessoa do plural ou, mais raramente, para a terceira pessoa do singular:
És um dos raros homens que têm o mundo nas mãos. (Augusto Abelaria, NC, 121)
Umas das coisas que mais me impressionam é a terrível carreira em que nos excedemos. (Gilberto Amado, TL, 8.)
Foi um dos poucos do seu tempo que reconheceu a originalidade e importância da literatura brasileira. (João Ribeiro, AC, 326)
Acurvado sobre a mesa enconsa de seu lavor mercantil, era, aí mesmo, um dos primeiros homens doutos que escrevia em português sem mácula. (Camilo Castelo Branco, BE, 213)
Observação: O verbo no singular destaca o sujeito do grupo em relação ao qual vem mencionado, ao contrário do que ocorre se construirmos a oração com o verbo no plural.
Como devem imaginar, não concordo com estes autores. Primeiro, porque não dão uma razão cabal à utilização do singular (enquanto que a utilização do plural faz sentido gramaticalmente), mas uma razão
psicológica, de que se está a enfatizar o sujeito. Segundo, porque limita-se a transcrever exemplos de uso, que não significam nada.
Por maior consideração que tenha pelo Camilo Castelo Branco, não fosse ele cá do burgo, e possa concordar que tem uma grande obra, um estilo interessante, e imaginação fértil, não o considero o suprassumo da língua. O facto de ele usar aquela construção tanto pode ser propositada (será que lhe perguntaram?) como poderá ser simplesmente por ignorância. Mesmo que tenha sido propositada, isso não lhe dá qualquer crédito. Ou então, olhem para a obra do José Saramago, e comecem a transcrever frases da sua obra para as gramáticas, para defender que não há qualquer necessidade no uso da pontuação.
Também já ouvi dizer que
é assim que a língua evolui. Mas, reparem, se queremos que a língua evolua, para que mandamos os nossos filhos para a escola, e porque têm eles disciplinas de português, e porque marcam os professores erros ortográficos? Neste momento pode ser um erro, mas quem sabe daqui a uns anos não é a nova forma de escrever?
Do mesmo modo, porque é que há iniciativas, como o programa
Cuidado com a Língua que passa na RTP1, que mostram erros cometidos por políticos, comentadores e repórteres? Será que realmente são um erro? Ou será que estão a dar ênfase a determinado aspecto da sua ideia?
É por estas e outras mentalidades que a nossa língua não evolui, mas cai na desgraça, como é o exemplo do novo acordo ortográfico. Em vez de se aplicar bom senso e alguma normalização matemática à língua, abrem-se ainda novas excepções, e complica-se ainda mais a vida a quem tem de aprender e fazer uso da língua.
É que no final, fico sem saber: a língua deve evoluir por si, pelo povo que a usa, ou deve ser especificada em diário da república, obrigando a população a adaptar-se ao que um conjunto de políticos hipócritas acham?